Gosto do clima dos grandes congressos evangélicos. Há a grata oportunidade de rever e fazer amigos. Percebem-se mobilizações que certamente repercutirão nas bases. Infelizmente, nem todos esses grandes encontros são ricos em conteúdos.
Muitas vezes, perdem-se riquíssimas oportunidades de aproveitar pastores e líderes reunidos para sinalizar novos rumos para a igreja. Lembro-me de um congresso em que um dos preletores, americano, iniciou ilustrando sua fala com uma famosíssima propaganda da Nike.
Descreveu os 30 segundos do comercial com detalhes. Sua entonação de voz era dramática: "O Michael Jordan em um jogo de basquete dribla um, dois, três, voa em direção ao aro e 'enterra' a bola com uma determinação invejável". Nosso conferencista disse que arrepiou-se quando ouviu, no fim do comercial, a frase de efeito da multinacional de artigos esportivos: Just do it (Simplesmente faça).
Modulando sua voz para ser ainda mais enfático, pediu-nos: "Evangélicos brasileiros, just do it". Algumas horas depois pensei: "Será essa mensagem pertinente à realidade brasileira? A grande urgência dos cristãos latino-americanos é sair da complacência?" Seguramente, não. Talvez a cristandade anglo-saxônica, vivendo sob o signo do consumismo e, portanto, acomodada, necessite de um pregador que venha dizer-lhe que precisa ser mais operosa. No Brasil, onde a igreja cresce a passos largos, esse discurso é, no mínimo, redundante.
Os cristãos brasileiros mostram um vigor ímpar na sua disposição de trabalhar pela causa evangélica. Nunca se viram tantas igrejas, revistas, livros, CDs, marchas, congressos, programas de rádio e televisão. Igrejas pipocam por todos os lados.
Ministérios se multiplicam. O esforço missionário brasileiro é o maior na América Latina. O problema da igreja evangélica brasileira não é fazer, mas como fazer. Aliás, o pragmatismo americano é perfeitamente dispensável para a realidade brasileira.
Não precisamos de novas técnicas de crescimento de igreja nem de seminários sobre desempenho espiritual. Não precisamos de mais ação, mas de mais abstração. Aqui vamos fazendo, fazendo... e, sem tempo para aprender com os erros, causamos prejuízos em nossa prática religiosa. Algumas igrejas se orgulham de que mal têm tempo para preparar seus novos pastores.
Depois de alguns meses de ingresso no seminário, têm de abandonar o curso para trabalhar na seara. Em Portugal, ouvi de vários pastores, tanto brasileiros como portugueses, que nosso esforço missionário decepcionou bastante. Sem preparo ou sensibilidade cultural, alguns chegaram às terras lusitanas pensando que o jeito brasileiro de ser cristão deveria ser imposto aos portugueses. Lá, existe um sentimento unânime de que os brasileiros devem repensar sua missiologia.
Nos Estados Unidos, já houve inúmeros escândalos no esforço de alcançar os milhares de brasileiros que lá vivem. Estamos aprendendo a duras penas que em missões não basta ir fazendo de qualquer maneira. Com seu estilo cáustico, na Folha de São Paulo de 5 de outubro de 1999, Marilene Felinto espicaçou os evangélicos quando falou sobre um determinado deputado do Acre, eleito com as bênçãos dos crentes: Afinal, que lei é essa que permite a candidatura de bandidos a cargos públicos?
Também é importante notar como a mistura entre cristianismo evangélico e política tem se aproveitado como nunca da boa fé do povo. O deputado José Aleksandro da Silva (PFL-AC), suspeito de ligações com o narcotráfico e o crime organizado no Acre, foi eleito com apoio da Assembléia de Deus, a maior igreja pentecostal do Brasil, especialista em recrutar pobres e ignorantes para engrossar suas fileiras e convencê-los de que a vida nesta terra é um vale de lágrimas e que toda a felicidade está no além etéreo dos céus. É a moral do escravo, do rebanho, da doçura feminina e cristã, diz Rubens Rodrigues Torres Filho, em estudo sobre a moral do além-do-homem (além do bem e do mal) de Nietzsche, oposta à cristã.
Para Nietzsche, o cristianismo repousa em dogmas e crenças que impõem à consciência fraca e escrava a resignação e a renúncia como virtudes. Para ele, os escravos e os vencidos da vida inventaram o além para compensar a miséria; inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade da participação nos valores dos senhores e dos fortes. Nietzsche traz à tona, diz Torres Filho, um significado esquecido da palavra 'bom'. Em latim 'bonus' significa também 'o guerreiro', significado este que foi sepultado pelo cristianismo (e pela ignorância brasileira).
Cito este artigo com pesar. Mas vale como lembrança de que na política não podemos crer naquele just do it de nosso preletor. Os deputados da última Constituinte foram vaiados no Congresso, sob uma chuva de dinheiro. Pairava sobre eles a suspeita de terem se vendido.
Em São Paulo, correm boatos feios. O envolvimento sujo de algumas igrejas nas últimas eleições para governador nos envergonha. Na CPI dos vereadores da capital paulista, novamente havia evangélicos. Alguns pastores chegaram a ser presos.
É hora de sermos menos ágeis e mais reflexivos. Menos expansionistas e mais densos. Precisamos de mais profundidade teológica, mais leitura interdisciplinar, melhor sensibilidade cultural e muito, muito bom senso. Urge equilibrar piedade com cidadania. Creio que a lógica abstraída da Carta de Paulo aos Filipenses esteja fora de seu contexto histórico: "Alguns efetivamente proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade; estes, por amor, sabendo que estou incumbido da defesa do evangelho; aqueles, contudo, pregam a Cristo, por discórdia, insinceramente, julgando suscitar tribulação às minhas cadeias. Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, que por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei." (Fp 1.15-18.) Devemos observar que a questão aqui é relacional e, não, ética; operacional, mas nunca doutrinária. As motivações podem ser questionáveis; os conteúdos, nunca. Paulo jamais adotaria o maquiavelismo em sua práxis.
Tomar esse versículo para justificar desmandos em nome de Deus é prostituir sua revelação. A igreja evangélica brasileira precisa urgentemente incorporar pelo menos três posturas: Não ver conflito entre crer e pensar; refletir antes de agir; agir sem imediatismo. As Escrituras chegaram até nós depois de vencerem tremendos desafios teológicos, filosóficos e ideológicos.
Tomá-las supersticiosamente nega séculos de sua sobrevivência heróica. Paulo admoestou seu discípulo Timóteo: "Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino" (1 Tm 4.13); "procura apresentar-te a Deus, aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade" (2 Tm 3.15). A Tito ensinou: "No ensino, mostra integridade, reverência" (Tt 2.7). Não devemos ter medo de crer e pensar. Jesus é a verdade.
A verdade não tem medo de questionamentos. Ela não teme ser exposta. Quem precisa mascarar o que afirma é porque teme a luz. Pensemos sem medo nossos métodos, critiquemos abertamente nossas estruturas e sejamos francos quando errarmos. No meu Ceará, fala-se um ditado popular verdadeiro: "Caldo de galinha e prudência não fazem mal a ninguém".
Jesus sugeriu a prudência das serpentes aos seus discípulos (Mt 10.16) porque conhecia a impulsividade da natureza humana. Trata-se de uma cautela que nasça de reflexão séria e planejamento responsável. A igreja evangélica não precisa repetir erros que já foram superados. A história também não precisa ser repetida. Diz-se que há várias formas de se pescar: anzol, rede, tarrafa etc.
Pode-se pescar também com dinamite. Explodindo o rio, tiram-se mais peixes. Essa prática, porém, é predatória. Quando a igreja é imediatista em seu esforço evangelístico, pode estar praticando uma pesca destrutiva. Consegue muitas conversões, mas avaria o seu testemunho em um contexto maior.
Devemos ter o cuidado de não olhar apenas o que acontece dominicalmente em nossos templos, mas principalmente o testemunho que espalhamos na sociedade. A ordem bíblica é que sejamos como astros e luzeiros no meio de uma geração corrompida e perversa.
Não custa lembrar: "Quem crê não se apressa" (Is 28.16).
Pastor Ricardo Gondim
Ricardo Gondim é pastor da igreja Assembléia de Deus Betesda, em São Paulo, e autor de, entre outros, "É proibido" (Editora Mundo Cristão). Texto extraído da Revista Ultimato - http://www.ultimato.com.br
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